Factores condicionantes da força em ciclismo de estrada

A força que o ciclista desenvolve para deslocar-se na bicicleta, é algo fascinante, pela sua complexidade. Sim, leram bem, pela complexidade desta capacidade motora. Nesta modalidade, existem muitos factores que vão determinar a nossa capacidade de produzir força. Em primeiro lugar porque se conduz um veículo, e como tal implica factores mecânicos. Depois porque é realizada ao ar livre, o que implica estar sujeito a condições ambientais. E ainda tem umas características do âmbito da biomecânica que são também elas importantes. Para além claro dos factores morfo-fisiológicos inerentes a qualquer actividade física.
Quando falo em produzir força, não me refiro á potencia que o ciclista desenvolve. Não. Neste texto refiro-me sobretudo á capacidade de superar a resistência da bicicleta, do próprio corpo, do ar, do chão, e da gravidade. Claro está que o ciclismo, por ser uma modalidade em que existe velocidade, a potência é o tipo de força rápida mais predominante. Contudo, quando falamos de força, estamos a falar também de potência, pois são directamente interligadas.

Factores condicionantes da força em ciclismo de estrada

•    Morfo-fisiológicos
•    Mecânicos
•    Biomecânicos
•    Condições do terreno
•    Condições climatéricas
•    Força da gravidade

Factores Morfo-fisiológicos

A nossa composição corporal é determinante para aumentar substancialmente a nossa produção de força. Dentro da composição corporal são factores importantes como a quantidade e qualidade da massa muscular magra (tipo de fibra muscular – tipo I, tipo IIa e tipo IIb), a quantidade de peso supérfluo (% massa gorda), assim como do comprimentos dos segmentos (nomeadamente dos membros inferiores). A nível fisiológico temos de considerar capacidade neural dos músculos para produzir força, assim como as reservas de glicogénio dos músculos, entre outros factores.
Exemplo prático:
Um ciclista com menos peso supérfluo, conseguirá produzir mais força do que com mais massa gorda (%), pois terá que suportar uma resistência menor face ao seu próprio corpo.

Factores Mecânicos

Dentro dos factores mecânicos, incluem-se aspectos mais directamente relacionados com a bicicleta. O tipo de material utilizado vai ter influência de duas formas. No peso do conjunto bicicleta+ciclista, e no arrasto. Esse arrasto pode ser devido a atritos directamente relacionados com os componentes mecânicos da bicicleta (pneus mais ou menos aderentes, transmissão desafinada, cabos de travão sem lubrificação, empeno da roda, etc). Dentro desta variável, a forma como a podemos alterar é mantendo a bicicleta em bom estado, fazendo sempre uma boa manutenção e fazer utilização correta da transmissão principalmente.
Exemplo prático:
Uma bicicleta toda afinada e lubrificada, produz menos atrito que uma bicicleta com problemas mecânicos. Logo este factor vai influenciar a força que o ciclista terá que desenvolver para “arrastar” a bicicleta.

Factores biomecânicos

Estão directamente relacionados com a capacidade de aspiração do ar, quer de forma individual, quer de forma colectiva através da técnica do gesto desportivo. De forma individual quando falamos da posição que este adopta na bicicleta. Colectiva na forma como este aproveita a aspiração do ar para diminuir o atrito. Está também directamente relacionado com factores de ordem mecânica, nomeadamente dos componentes da bicicleta e do equipamento do ciclista, que vão influenciar a área de contacto com o ar, na sua horizontalidade.
Exemplos práticos:
Uma bicicleta toda equipada com material mais aerodinâmico, fará com que o atrito criado seja menor. Logo diminui a quantidade de força que temos de aplicar.
Um ciclista tecnicamente evoluído, que sabe aproveitar as potencialidades da técnica individual e colectiva, não necessita de produzir tanta força, pois serve-se da aspiração do ar para reduzir o seu esforço.

Condições do piso

O tipo de piso que a bicicleta percorre determina também a força aplicada. Quanto mais irregular for o piso, maior dificuldade terá a bicicleta de se deslocar, e por conseguinte, mais força terá que ser aplicada para mover a bicicleta. Não é ao acaso que em zonas de paralelo ou pavé a potência produzida pelos ciclistas é muito influenciada pela força, em detrimento duma diminuição da cadência.
Exemplo prático:
Um ciclista num terreno com paralelo terá muita dificuldade em progredir pois irregularidades farão com que a bicicleta pare mais rápido em relação a um piso asfaltado. Assim para que a mesma ande mais rápido precisa de produzir muito mais força.

Condições climatéricas

Este é sem dúvida um factor muito predominante no ciclismo. O facto de o vento estar com mais ou menos intensidade, vai determinar logo a maior ou menor necessidade de produzir força, pois o deslocamento no ar depende disso, quanto maior for a velocidade de arrastamento. A temperatura ambiente será também um factor a ter em conta, no entanto, com menor impacto na produção de força. De qualquer forma, e não menos importante, um músculo tem um gasto energético mais acentuado em temperaturas frias, pois para além do movimento propriamente dito, o gasto energético é também de carácter térmico, o que faz com que a disponibilidade de energia seja menor, e a produção de força seja reduzida.
Exemplo prático:
Conduzir a bicicleta com um vento de frente irá dificultar muito a progressão, e consequentemente a produção de força terá que aumentar, para manter uma velocidade equivalente a uma condição de vento fraco.

Força da gravidade

Este é o factor mais determinante, e que mais condiciona a produção de força num ciclista. A força da gravidade vai determinar que um corpo, perante uma inclinação, sofra um aumento significativo da resistência criada, e desta forma o peso do conjunto atleta+bicicleta será determinante. A percentagem de inclinação da estrada vai determinar o impacto dessa mesma força da gravidade. Quanto maior for a inclinação, maior a sua influência, quer a descer, quer a subir. Perante este facto, a produção de força aumenta substancialmente numa zona inclinada, e diminui significativamente numa zona declinada.
Exemplo prático:
Um ciclista com 60kg terá em teoria mais vantagem numa subida (partindo do principio de que são atletas treinados), perante um ciclista com 80kg. Seria como ter que subir a pé uma montanha com uma mochila de 20kg nas costas… uma diferença muito grande!
Em forma de síntese, podemos afirmar que a força depende sempre da resistência. Quanto mais pequena ela for, melhor o ciclista consegue produzir força. Essa resistência é influenciada por todos estes factores, contudo nem todos eles estão ao nosso alcance modificar.

“O objetivo do ciclismo é, e será sempre diminuir a resistência. Quanto mais o conseguirmos fazer, menos potência vamos precisar de aplicar, e por conseguinte mais tempo vamos conseguir aguentar determinado esforço.

Enquanto que nós podemos trabalhar os factores fisiológicos, mecânicos e biomecânicos, para melhorar o nosso rendimento, já os factores do piso, clima, e orografia não podemos alterar, sendo desta forma uma conjugação de factores que torna esta modalidade tão complexa, e ao mesmo tempo também, muito aleatória.
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