A intervenção do psicólogo no desporto

Nos dias de hoje o psicólogo desportivo começa a ganhar cada vez mais terreno no seio do mundo do desporto. Hoje trago-vos um texto citado por Sidónio Serpa, o qual refere quais são as abordagens do psicólogo neste âmbito.
Abordagem clínica
A intervenção do psicólogo do desporto é, de modo incorrecto, vulgarmente associada apenas á dimensão clínica, que é somente uma parte do trabalho nesta área, o que tende a afastar atletas receosos de serem identificados com “deficiências” psicológicas negativas para a sua imagem pública e entre os pares. Não obstante, verificam-se distúrbios alimentares, problemas de angústias associadas á participação desportiva, depressões decorrentes de lesões ou de outros elementos da história pessoal, alterações emocionais e comportamentais decorrentes do sobretreino ou da toma de substâncias, problemas de desadaptação social, etc., que necessitam de uma abordagem clínica. Muitos dos acpectos referidos não se devem necessariamente á prática desportiva, mas a uma problemática psicológica mais vasta que o desporto desencadeia, e merecem uma atenção cuidada de especialistas de saúde, incluindo de psicólogos, já que entre todos deve haver estreita colaboração em benefício dos desportistas. As metodologias do tipo cognitivo-comportamental são tipicamente as mais comuns no domínio das psicoterapias que tem lugar em contexto desportivo.
Adjunto do treinador
Alguns psicólogos realizam o seu trabalho no terreno, onde evoluem equipas e desportistas, participando activamente nos treinos com os outros membros da equipa técnica coordenada pelo treinador principal. Pressupõe forte entendimento com o líder da equipa que deve ser conhecedor dos factores psicológicos do desempenho desportivo de modo a integrar coerentemente a participação do psicólogo. Este colabora no estabelecimento dos objectivos e planos de trabalho, adaptando o treino psicológico ao trabalho global e contribuindo para que o processo geral de treino inclua variáveis psicológicas. Nalguns casos, essas variáveis devem estar contidas no trabalho físico e técnico-tático dirigido pelo treinador principal ou pelo menos outros técnicos. Noutras circunstâncias o próprio psicólogo deve dirigir tarefas no terreno com objectivo de gerir os estímulos que promovam a adequada adaptação psicológica às exigências do desempenho desportivo, optimizando-o. Aspectos como a concentração, a tomada de decisão, a preparação para o comportamento do adversário, a gestão das emoções, ou a organização psicológica em momentos chave carecem de trabalho específico que deve ser realizado durante os treinos. Ao vestir o fato de treino, o psicólogo do desporto não pretende substituir o treinador, nem lhe retirar protagonismo. Pelo contrário, apenas pode trabalhar com treinadores de elevada competência e capacidade integradora das diversas variáveis do rendimento o qual, num processo evoluído do treino, coordena uma equipa pluridisciplinar cujos membros ajudam no planeamento do trabalho e assumem tarefas devidamente enquadradas.
Consultor dos atletas
Noutro âmbito, começa a ser comum os atletas que visam o alto rendimento procurarem um psicólogo do desporto, afirmando que, apesar não sentirem nenhum problema psicológico, pretendem optimizar os seus recursos mentais para melhorar o desempenho. Neste caso, o especialista em psicologia pode desenvolver o trabalho no gabinete com a função de consultor psicológico. Aqui, o locus da intervenção pode ser o desenvolvimento pessoal do praticante, ajudando-o a melhorar o autoconhecimento de modo a compreender as suas reacções positivas e negativas com o obnjectivo de aproveitar e aprofundar as primeiras, bem como encontrar estratégias de superação de situações potencialmente problemáticas. A clara harmonização entre os diferentes projectos que integram o projecto de vida do desportista deve ser o alvo do trabalho. Com efeito, é importante que a vivência do praticante não se limite ao desporto, já que tal constitui enorme factor de pressão e de inibição do desenvolvimento de competências indirectamente associadas ao bom desempenho desportivo, designadamente intelectuais, académicas, ou profissionais. Todavia, é necessário saber gerir e hierarquizar os diversos projectos pessoais nas diferentes etapas do seu percurso desportivo. A clareza de metas, objectivos e processos é importante factor de sucesso, para a qual o psicólogo pode dar um contributo relevante. O ensino e treino de competências de regulação psicológica geral e específica, bem como o planeamento da carreira cuja indefinição pode ser um intenso factor de stresse, contituem outros conteúdos de trabalho. O psicólogo consultor actua profissionalmente a nível privado, atendendo quem, por maior esclarecimento e disponibilidade, o procure no mercado. No seio das organizações desportivas este técnico pode prestar idêntico serviço, com a vantagem de estar mais acessível aos praticantes e ter condições de se coordenar com outros agentes desportivos.
Consultor do treinador
Uma outra forma de trabalho do técnico de psicologia no desporto é o aconselhamento individual ao treinador, funcionando prioritária ou exclusivamente junto deste. Nesta função que alguns treinadores preferem, o psicólogo assume a função de assessor, observando e avaliando, por exemplo, a dinâmica do treino, as reacções dos praticantes, as relações interpessoais, a comunicação do treinador, e os factores do envolvimento físico e humano com influência nos desportistas. A colaboração com o treinador pode incluir a caracterização psicológica dos atletas, utilizando instrumentos psicométricos, entrevistas e observação. A organização da informação assim recolhida, salvaguardando a confidencialidade pessoal relativa aos atletas, será depois fornecida ao técnico, o que facilita a adaptação à realidade humana e contextual em que trabalha e fundamenta os necessários reajustamentos no comportamento. O especialista em psicologia pode também observar os adversários, analisando as características psicológicas a partir dos comportamentos e emoções expressas em competição, de modo a estabelecer a melhor estratégia competitiva. Esta tarefa esteve, por exemplo, a cargo do psicólogo que há alguns anos trabalhou com uma selecção estrangeira de hóquei em patins que, pela análise das condutas individuais e colectivas do rival directo, determinou uma tendência para desregulação psicológica em determinadas situações, o que veio a ser explorado pela sua equipa ajudando-a no sucesso em jogos contra esse adversário. Não menos importante é o apoio emocional a prestar ao treinador. Ao contrário da imagem de inabalável super-homem que tenta construir, é um ser humano sujeito a elevadíssimas pressões que carece muitas vezes de um suporte psicológico que o ajude na regulação emocional de modo a responder com eficácia as exigências da vida pessoal e profissional.
Excerto de texto de Sidónio Serpa
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2 respostas a A intervenção do psicólogo no desporto

  1. Feliciano Vasa Ferreira diz:

    Muito bom artigo!

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