Factores condicionantes da força em ciclismo de estrada

A força que o ciclista desenvolve para deslocar-se na bicicleta, é algo fascinante, pela sua complexidade. Sim, leram bem, pela complexidade desta capacidade motora. Nesta modalidade, existem muitos factores que vão determinar a nossa capacidade de produzir força. Em primeiro lugar porque se conduz um veículo, e como tal implica factores mecânicos. Depois porque é realizada ao ar livre, o que implica estar sujeito a condições ambientais. E ainda tem umas características do âmbito da biomecânica que são também elas importantes. Para além claro dos factores morfo-fisiológicos inerentes a qualquer actividade física.
Quando falo em produzir força, não me refiro á potencia que o ciclista desenvolve. Não. Neste texto refiro-me sobretudo á capacidade de superar a resistência da bicicleta, do próprio corpo, do ar, do chão, e da gravidade. Claro está que o ciclismo, por ser uma modalidade em que existe velocidade, a potência é o tipo de força rápida mais predominante. Contudo, quando falamos de força, estamos a falar também de potência, pois são directamente interligadas.

Factores condicionantes da força em ciclismo de estrada

•    Morfo-fisiológicos
•    Mecânicos
•    Biomecânicos
•    Condições do terreno
•    Condições climatéricas
•    Força da gravidade

Factores Morfo-fisiológicos

A nossa composição corporal é determinante para aumentar substancialmente a nossa produção de força. Dentro da composição corporal são factores importantes como a quantidade e qualidade da massa muscular magra (tipo de fibra muscular – tipo I, tipo IIa e tipo IIb), a quantidade de peso supérfluo (% massa gorda), assim como do comprimentos dos segmentos (nomeadamente dos membros inferiores). A nível fisiológico temos de considerar capacidade neural dos músculos para produzir força, assim como as reservas de glicogénio dos músculos, entre outros factores.
Exemplo prático:
Um ciclista com menos peso supérfluo, conseguirá produzir mais força do que com mais massa gorda (%), pois terá que suportar uma resistência menor face ao seu próprio corpo.

Factores Mecânicos

Dentro dos factores mecânicos, incluem-se aspectos mais directamente relacionados com a bicicleta. O tipo de material utilizado vai ter influência de duas formas. No peso do conjunto bicicleta+ciclista, e no arrasto. Esse arrasto pode ser devido a atritos directamente relacionados com os componentes mecânicos da bicicleta (pneus mais ou menos aderentes, transmissão desafinada, cabos de travão sem lubrificação, empeno da roda, etc). Dentro desta variável, a forma como a podemos alterar é mantendo a bicicleta em bom estado, fazendo sempre uma boa manutenção e fazer utilização correta da transmissão principalmente.
Exemplo prático:
Uma bicicleta toda afinada e lubrificada, produz menos atrito que uma bicicleta com problemas mecânicos. Logo este factor vai influenciar a força que o ciclista terá que desenvolver para “arrastar” a bicicleta.

Factores biomecânicos

Estão directamente relacionados com a capacidade de aspiração do ar, quer de forma individual, quer de forma colectiva através da técnica do gesto desportivo. De forma individual quando falamos da posição que este adopta na bicicleta. Colectiva na forma como este aproveita a aspiração do ar para diminuir o atrito. Está também directamente relacionado com factores de ordem mecânica, nomeadamente dos componentes da bicicleta e do equipamento do ciclista, que vão influenciar a área de contacto com o ar, na sua horizontalidade.
Exemplos práticos:
Uma bicicleta toda equipada com material mais aerodinâmico, fará com que o atrito criado seja menor. Logo diminui a quantidade de força que temos de aplicar.
Um ciclista tecnicamente evoluído, que sabe aproveitar as potencialidades da técnica individual e colectiva, não necessita de produzir tanta força, pois serve-se da aspiração do ar para reduzir o seu esforço.

Condições do piso

O tipo de piso que a bicicleta percorre determina também a força aplicada. Quanto mais irregular for o piso, maior dificuldade terá a bicicleta de se deslocar, e por conseguinte, mais força terá que ser aplicada para mover a bicicleta. Não é ao acaso que em zonas de paralelo ou pavé a potência produzida pelos ciclistas é muito influenciada pela força, em detrimento duma diminuição da cadência.
Exemplo prático:
Um ciclista num terreno com paralelo terá muita dificuldade em progredir pois irregularidades farão com que a bicicleta pare mais rápido em relação a um piso asfaltado. Assim para que a mesma ande mais rápido precisa de produzir muito mais força.

Condições climatéricas

Este é sem dúvida um factor muito predominante no ciclismo. O facto de o vento estar com mais ou menos intensidade, vai determinar logo a maior ou menor necessidade de produzir força, pois o deslocamento no ar depende disso, quanto maior for a velocidade de arrastamento. A temperatura ambiente será também um factor a ter em conta, no entanto, com menor impacto na produção de força. De qualquer forma, e não menos importante, um músculo tem um gasto energético mais acentuado em temperaturas frias, pois para além do movimento propriamente dito, o gasto energético é também de carácter térmico, o que faz com que a disponibilidade de energia seja menor, e a produção de força seja reduzida.
Exemplo prático:
Conduzir a bicicleta com um vento de frente irá dificultar muito a progressão, e consequentemente a produção de força terá que aumentar, para manter uma velocidade equivalente a uma condição de vento fraco.

Força da gravidade

Este é o factor mais determinante, e que mais condiciona a produção de força num ciclista. A força da gravidade vai determinar que um corpo, perante uma inclinação, sofra um aumento significativo da resistência criada, e desta forma o peso do conjunto atleta+bicicleta será determinante. A percentagem de inclinação da estrada vai determinar o impacto dessa mesma força da gravidade. Quanto maior for a inclinação, maior a sua influência, quer a descer, quer a subir. Perante este facto, a produção de força aumenta substancialmente numa zona inclinada, e diminui significativamente numa zona declinada.
Exemplo prático:
Um ciclista com 60kg terá em teoria mais vantagem numa subida (partindo do principio de que são atletas treinados), perante um ciclista com 80kg. Seria como ter que subir a pé uma montanha com uma mochila de 20kg nas costas… uma diferença muito grande!
Em forma de síntese, podemos afirmar que a força depende sempre da resistência. Quanto mais pequena ela for, melhor o ciclista consegue produzir força. Essa resistência é influenciada por todos estes factores, contudo nem todos eles estão ao nosso alcance modificar.

“O objetivo do ciclismo é, e será sempre diminuir a resistência. Quanto mais o conseguirmos fazer, menos potência vamos precisar de aplicar, e por conseguinte mais tempo vamos conseguir aguentar determinado esforço.

Enquanto que nós podemos trabalhar os factores fisiológicos, mecânicos e biomecânicos, para melhorar o nosso rendimento, já os factores do piso, clima, e orografia não podemos alterar, sendo desta forma uma conjugação de factores que torna esta modalidade tão complexa, e ao mesmo tempo também, muito aleatória.
Publicado em Estrada | Tags , | Publicar um comentário

Fim de semana de melhorias

Boa noite a todos!
Este fim de semana foi muito bom em termos de evolução do treino. Em vários aspetos. Não só se notou melhorias na condição física de alguns, como melhorias a nível técnico. Notaram-se também melhorias no espírito de equipa, que é igualmente importante.
Comecemos por Sábado. O treino foi programado apenas para juniores e cadetes. Foi pautado por uma boa organização, e por um aumento da intensidade. De que forma? Escolha de um percurso mais longo, e acidentado, que obrigava a que todos mantivessem o grupo compacto para não perder o embalo gerado nas descidas. A este factor, acrescentou-se a motivação do dia. A criação de “metas volantes” e “prémios de montanha” para aguçar um pouco as capacidades físicas.
Tem sido excelente esta iniciativa, e está a ter resultados muito bons, por vários motivos:
•    Os atletas sentem-se motivados e aguçam o espírito competitivo;
•    Verifica-se a condição física de cada um deles, e consequentes evoluções ou regressões, vendo quem tem treinado e quem se tem desleixado durante a semana;
•    Proporciona a adaptação fisiológica que quero, treinando sobretudo acima do limiar anaeróbio, de forma intervalada!
Eles têm dado um feedback muito positivo á forma como temos vindo a treinar, e isso tem sido bom pois motiva-me ainda mais para que assim continue! Além do mais este tipo de treinos quando transborda motivação geral, gera-se um maior entrosamento entre todos.
Este treino serviu ainda para dar alguns feedbacks negativos de como há atitudes que não se podem ter nos treinos. É importante que eles saibam que existem regras, e que existe uma filosofia de ciclista que deve ser seguida SEMPRE.
No Domingo, já com os escolas, o percurso foi o mesmo da semana passada. Notei uma melhor técnica colectiva, e fiquei surpreendido com alguns dos elementos quando lhes foi pedido para fazer “meio-fundo”. Neste treino para quebrar um pouco a monotonia e motivar mais o grupo, decidi dar uma pequena introdução sobre como se deve perseguir um fugitivo. O exercício foi um sucesso, e senti muitos aspectos positivos:
•    Os atletas aprenderam que o segredo de uma perseguição bem sucedida é desgastar o fugitivo, mantendo uma distância suficiente para o conseguir alcançar quando este já estiver mais desgastado;
•    Motivei o atleta em questão (fugitivo) pois ele elevou um pouco mais a sua autoconfiança ao conseguir andar em fuga durante cerca de 10 quilómetros num percurso exigente, coisa que nunca tinha conseguido fazer;
•    Senti que os atletas entre eles começavam a puxar uns pelos outros no sentido de manter o grupo coeso para a perseguição ser bem sucedida;
•    Apercebi-me que este tipo de exercício faz com que os atletas que perseguem se transcendam e percebam que afinal são capazes, saindo da sua zona de conforto;
•    Percebi ainda que eles aprendem muito mais facilmente a perseguir, indo eu com eles na bicicleta e exemplificando, do que quando ia na carrinha atrás deles;
•    E o mais importante, trabalham num patamar muito próximo do limiar anaeróbio, potenciando um excelente trabalho aeróbio.
Notas finais:
Gostei de ver a excelente cooperação e espírito de entreajuda dos mais velhos para com os menos experientes, nomeadamente o Samuel e o Miki. De acrescentar ainda que quem me continua a surpreender de dia para dia, é o António Ferreira, que demonstra um á vontade tão grande na bicicleta.
Vi uma boa evolução do Renato Pinto e do Pedro Matos, que está a evoluir sobretudo mentalmente. Já não desiste tão facilmente, sofre mais um pouco quando é preciso, e nunca descansa até encostar ao grupo quando está atrasado, sendo um exemplo da atitude correcta que eu quero nos meus atletas!
Tenho gostado também de ver A evolução física do Miki, do Miguel Duarte e do Samuel. Este último tem-me surpreendido pela positiva pois tem relevado uma atitude diferente, e muito mais aplicado! Temos aqui um candidato a atleta do mês!
Com tantas evoluções a ocorrerem ao mesmo tempo, e não menos importante, noto que a minha condição física também está a melhorar, e isso é importante pois o treinador tem de dar o exemplo, e até ver, está a ter sucesso. :D
Até para a semana!
Publicado em Crónicas de um treinador | Publicar um comentário

Semana de adaptação á estrada

Boa noite a todos :)
Neste fim-de-semana começamos os treinos mais a sério na estrada. Até aqui, tinha-mos feito uma pequena introdução á técnica de andamento em grupo, para que eles percebam as bases técnicas e algumas normas de segurança. Assim sendo estes novos treinos foram uma passagem daquilo que aprenderam, para a estrada propriamente dita (isto é, com transito, e todos os obstáculos e riscos que esta acarreta).
Optei por fazer o mesmo percurso no sábado e no Domingo, com a diferença de que nos dois dias tive um número bem diferente de ciclistas. Sábado éramos 9 (apenas cadetes e juniores), domingo éramos 13 (incluindo os escolas).
O treino de Sábado desenrolou-se muito bem. Sempre organizados, fazendo rendição em fila dupla no plano e nas descidas, e fazendo formação ordenada em fila dupla nas subidas, para o grupo não se alongar muito. Os feedbacks já foram menos intensos, os atletas souberam gerir bem a sua própria posição ao longo de todo o treino, sem partir muito o grupo. Decidi fazer a maioria do treino em rendição em fila dupla, por várias razões:
  • O treino desenrola-se mais rápido e sem interrupções;
  • O grupo rola mais compacto e sem dispersões no espaço;
  • Há mais homogeneidade entre os atletas pois é um ritmo a que todos conseguem ir;
  • Aumenta os índices de atenção, pois exige concentração constante, o que no fundo será o que eles vão encontrar nas corridas.
No entanto penso que poderei optar por numa fase inicial fazer formação ordenada em fila dupla com rendição para fora e de forma mais lenta, para se ambientarem ao grupo primeiro, e fomentar um melhor aquecimento. Este tipo de formação é para mim o ideal para os ritmos iniciais do treino, assim como na parte final, onde a velocidade é mais reduzida.
Optei ainda por colocar um aspecto motivador, uns prémios de montanha para haver alguma motivação extra. Isto é no fundo também uma forma de ir vendo como eles estão fisicamente, e de mostrarem-me (os mais novos) em que tipos de características se destacam mais.
O treino de domingo, contou com uma cara nova! Mais um juvenil, o João Dinis quis vir experimentar a estrada. Parace-me um miudo com capacidades interessantes. Esteve um pouco “encolhido” mas é o normal visto ser o seu primeiro contacto com a equipa. Á parte disso, tentei que o treino fosse novamente organizado como no dia anterior. No entanto, os miúdos mais novos destoaram muito a organização, não em termos de ritmo, mas sim em termos de técnica. Demoramos algum tempo até encontrar a consistência que precisávamos. Mas conseguimos chegar lá, e isso foi muito importante!
Deparei-me desta vez com o problema da comunicação, pois éramos 13 ciclistas e quando havia muita distância era difícil eu fazer-me ouvir. Inclusive parei o treino uma vez para dar um feedback mais assertivo, pois não estavam a ouvir nada do que eu estava a dizer.
Outra das questões que não ajudou, foi o facto de os mais velhos se entusiasmarem demasiado com as “fictícias” metas volantes, que acabaram por na parte final baralhar a organização por completo. Deste modo irei optar por atribuir essa motivação apenas nos treinos de cadetes e juniores (que serão os treinos mais duros).
Com tantas aprendizagens a ocorrerem ao mesmo tempo, quer da parte deles enquanto ciclistas, quer minhas enquanto treinador, acho que a cada dia a evolução será maior, e o processo ensino-aprendizagem decorrerá da melhor maneira possível.
Gostava ainda de deixar um último comentário de apreço aos pais dos atletas (nomeadamente dos mais novos) que têm sido 5 estrelas no acompanhamento aos seus pupilos!
Até para a semana.
TT
Publicado em Crónicas de um treinador | Publicar um comentário

Semana de consolidação da técnica colectiva

Boa tarde a todos
Peço desculpa por não actualizar o blogue com a regularidade que gostaria mas a falta de tempo tem sido muita.
Fazendo um pequeno balanço destas duas semanas em que já estamos na estrada, é positivo de uma forma geral. Esta é uma fase crucial principalmente para os estreantes, pois é aqui que irão começar a ganhar as bases técnicas para posteriormente se puderem desenvolver fisicamente, e posteriormente nas competições, desenvolverem tacticamente.
É , contudo, com alguma preocupação que vejo que nem todos têm correspondido ás chamadas aos treinos com a mesma regularidade. Compreendo em parte algumas limitações, e o facto de os fins-de-semana terem sido festivos dificultou a ida aos treinos. Contudo, irei começar a prejudicar aqueles que têm faltado aos treinos, pois não faz sentido que seja de outra forma, uma vez que eu gosto de premiar quem se esforça e se mostra empenhado.
Pois a verdade é que aqueles que têm vindo sempre, já evoluíram muito, e já sabem minimamente as regras básicas de trânsito e de pedalar em grupo. A este facto junta-se a homogeneidade que se começa a sentir no grupo. Por outro lado, aqueles que tem faltado, quando aparecem no treino estão muito atrasados e destoam toda a organização do grupo, o que a mim me deixa frustrado evidentemente pois não consigo tornar o treino fluido como gosto que ele seja.
Á parte de todas as preocupações, sinto que os mais velhos estão a ter uma excelente atitude, e têm sido também uma boa ajuda na organização do treino. Sinto que começa a haver mais respeito pelo treinador, mais até num sentido da motivação, e não tanto pela via da disciplina. Sinto que os que vem sempre, o fazem porque se sentem motivados e gostam que eu lhes dê indicações para melhorarem, e isso faz obviamente sentir-me muito bem, porque isso nota-se depois na estrada.
A partir da próxima semana, iremos entrar na parte mais séria do período preparatório específico, onde deixaremos para trás estes mini circuitos, e passaremos a fazer treinos propriamente ditos na via pública e enfrentar as verdadeiras adversidades do percurso diário de treino do ciclista. A partir de agora vamos evoluir progressivamente na intensidade e no volume. A nível de trabalho técnico continuaremos a debruçar-nos sobre os mesmos conteúdos. Formações escalonadas e rendições. Quando eu vir que o grupo já se sente pronto para partir para novos estímulos, passarei para outras componentes técnicas.
Tenho-me sentido extremamente motivado por conduzir o grupo desta forma, e espero que os ciclistas continuem a demonstrar empenho, pois isso ajuda á consolidação técnica e á coesão do grupo.
Resta-me ainda dizer que em breve irei fazer uma avaliação psicométrica aos ciclistas, e também, avaliar a composição corporal para controlar os pesos com mais rigor.
Um abraço,
TT
Publicado em Crónicas de um treinador | Publicar um comentário

Período preparatório específico – Semana 1

No Passado fim de semana iniciámos os treinos na estrada. Entramos num dos períodos cruciais da temporada. O período preparatório específico resume-se á preparação feita em bicicleta para a temporada que se avisinha. A grande novidade face ao ano anterior é o facto de eu ir com eles na bicicleta! :) Que saudades que tinha desta sensação! :)
Comentários á parte, esta nova forma de treinar permite-me melhorar substancialmente a qualidade dos feedbacks durante o treino. Consigo facilmente interpelar um erro técnico rapidamente, ao passo que na carrinha não consigo fazer isso da mesma forma.
Decidi criar progressões pedagógicas, algo que ano passado apenas comecei a fazer a meio do período preparatório específico, e que notei resultados. Tinha pensado inicialmente fazer um treino muito básico com incidência sobre a pedalada em cadências elevadas, o posicionamento das mão no guiador, e algumas regras de condução em grupo. No entanto, rapidamente verifiquei que tive de acrescentar outro feedback, o do acoplamento á roda do ciclista que o antecede.
É impossível pedir aos ciclistas para realizarem os dois primeiros conteúdos técnicos, sem que o grupo permaneça num bloco compacto. Primeiro porque dificulta a própria aprendizagem, e também dificulta as indicações da minha parte. Neste sentido, e explicando de uma forma mais simples para que percebam, acabei por dar mais orientações do que aquelas que previ, pois as circunstâncias assim o exigiram. No entanto, acabaram por não ser demasiados conteúdos, porque no fundo todos se interligam.
Ao nível da questão da utilização da bicicleta cumprindo o código da estrada em si (e não só), treinamos questões importantes como:
  • Como abordar um cruzamento (semáforo) e uma rotunda;
  • Como conduzir correctamente sinalizando as manobras, e os obstáculos no percurso;
  • Regras de segurança basilares para pedalar em grupo (impedir o excesso de uso dos travões para não prejudicar a organização e a aerodinâmica do grupo)
No que toca a conteúdos pedagógicos da aprendizagem, incidimos sobre:
  • Aerodinâmica individual através da posição na bicicleta;
  • Pedalagem com cadências elevadas para criar um automatismo de poupança energética;
  • Aerodinâmica coletiva através do acoplamento á roda do ciclista da frente;
  • Andamento em fila indiana e serpenteado para fazer com que o grupo esteja sempre compacto.
Fiquei surpreendido com o primeiro treino, pois bastou dar os feedbacks em cima deles, e rapidamente aprenderam a seguir na roda e deixar de travar tão bruscamente. A ajuda dos ciclistas mais velhos também foi muito importante para que os novos ciclistas aprendessem rapidamente o que tinham de fazer. Em menos de uma hora e meia de treino a diferença entre o início e o final do exercício era astronómica! (No sentido positivo).
O ambiente no grupo também é propício para que se desinibam rapidamente e interajam facilmente sem criar atritos.
Quem me surpreendeu mais foi sem dúvida o nosso miúdo mais novo, infantil com apenas 11 anos, o António pegou de estaca e demonstrou um á vontade enorme em cima da bicicleta. Além disso, o Pedro Teixeira, juvenil, embora respondão, acabou por ouvir o que lhe disse e rapidamente evoluiu para um patamar bem interessante tecnicamente, quebrando aquele gelo inicial. Nota positiva também para o Pedro Matos que me surpreendeu muito pela sua vontade em aprender, embora revele ainda algumas limitações psicomotoras mas penso que tem muita vontade e demonstra efectivamente muito querer em melhorar-se e isso é muito bom!
Tudo isto se passou no 1º treino no Sábado. No Domingo, foi muito mais fácil iniciar o treino pois a maioria já dominava os conceitos básicos que aprenderam no dia anterior. Apenas tive de me focar mais nos que tinham faltado no dia anterior. Tão rápida foi a evolução do grupo que senti a necessidade de criar um novo estímulo. Esse novo estímulo foi:
  • Formação ordenada em fila dupla
  • Rendição paralela pelo lado de fora
A evolução foi deveras rápida pois estes conteúdos são muito difíceis de implementar nos primeiros treinos da época, principalmente se muitos dos atletas forem novos.
Para terminar resta apenas dizer que penso que as questões mais importantes que contribuem para esta enorme evolução são:
  • A coesão que o grupo apresenta, fruto da fase anterior da preparação;
  • O facto de treinarmos numa fase inicial num circuito muito pequeno, com duas vias em cada sentido e com pouco ou nenhum transito, que facilitou a organização do treino e a rápida adaptação dos novos ciclistas;
  • E a dedicação apresentada pelos responsáveis da equipa e sobretudo pelos pais dos atletas, que tem sido fundamentais para que as coisas estejam a correr bem.
Com isto, termino este já extenso resumo dos últimos 2 treinos. Com muito gosto escrevo este texto pois sinto que as coisas funcionaram extremamente bem. Agora durante a semana vamos aproveitar as férias escolares para melhorar estas questões, para quando partirmos para os treinos na estrada mais a sério, já não haver preocupações com o andamento em grupo.
Publicado em Crónicas de um treinador | Publicar um comentário

Período Preparatório Geral – Semana 7

No passado Domingo o ASC-Vila do Conde realizou mais um treino na praia de Árvore, em Vila do Conde. Os atletas chegaram todos a horas, e com vontade de vir treinar, algo que me surpreendeu pela positiva.
O vídeo da semana passada ajudou-me imenso a ver o que tinha feito menos bem, e neste treino já melhorei muito a rentabilidade de alguns exercícios. Deixaram de ser eles a escolher os alongamentos e voltamos ao modelo anterior em que eu é que o dirijo. Não só é mais focado no que quero trabalhar, como perco muito menos tempo.
Decidi inventar jogos novos e que resultaram muito bem. No fundo fizeram o mesmo tipo de trabalho que nos métodos anteriores (isométrico) de abdominal e de lombar, no entanto com a bola lá pelo meio acabaram por conseguir aguentar bem o esforço e não foi tão penoso para eles.
Contudo penso que posso melhorar ainda em alguns pontos. Realizei um exercício de decúbito dorsal em que quem deixasse cair as pernas ou não passásse a bola correctamente era “arrumado”. Aos poucos eram eliminados até ficar só um vencedor. Foi muito bom mesmo eu consegui facilmente improvisar variações para aumentar a dificuldade. No entanto tem o inconveniente de quem está eliminado não estar a trabalhar, o que acaba por prejudicá-los. Nesse aspecto acho que devo melhorar.
O factor “competição” quando incutido no treino, acaba por permitir alguns facilitismos nas questões técnicas, e consegui penso eu superar essa dificuldade impondo sempre um conjunto variado de regras para que os movimentos mantivessem a objetividade que eu pretendia.
Tinha planeados alguns jogos que acabei por não os fazer, pois foram-me surgindo ideias novas durante o treino. Não sei se foram grandes escolhas, pois penso que se seguisse o plano as coisas resultavam ainda melhor.
Quanto ao comportamento dos miúdos, senti um feedback mais positivo no que toca á metodologia. Senti que estavam mais divertidos e que estão a entrosar-se bem.
Na próxima semana será o ultimo treino na praia, e quero arrasar, não só em qualidade do treino, como em intensidade. Quero sair de lá e pensar que o dever foi cumprido, e que com o culminar de todos estes treinos feitos até agora, a minha própria evolução metodológica e pedagógica melhorou. Vou tentar também arranjar forma de dar uma pequena palestra antes do final da semana. Queria ver se o conseguia fazer, pois seria importante como introdução á estrada. Já tenho toda a época planeada e estruturada e quero seguir tudo o mais possível ao pormenor, tentando ao máximo nunca me esquecer de nada.
Confesso que estou ansioso por iniciar os treinos na estrada, onde espero dar um salto qualitativo em relação ao ano anterior, no que toca á progressão pedagógica dos conteúdos e á capacidade de dar feedbacks.
Abraços
TT
Publicado em Crónicas de um treinador | Publicar um comentário

Periodo preparatorio geral – semana 6

Boa noite a todos
Hoje decidi fazer um treino completamente diferente do habitual. Tinha ficado com a sensação, na semana passada, que eles estava a começar a ficar um pouco saturados do tipo de treino que tinha vindo a implementar. Como se costuma dizer, o treinador é que tem de ter a capacidade se adaptar ás circunstâncias, e antecipar eventuais problemas (neste caso em específico desmotivação) e nunca o contrário.
Decidi portanto dar ênfase a dois aspectos:
1º – A bola foi o centro das atenções. Todos os exercícios tinham de ter a bola, quer seja direta ou indiretamente. Foi sem dúvida um estímulo que resultou bem melhor. Além disso, nos exercícios de carácter individual, dei oportunidade para que cada um pudesse tomar as suas próprias decisões, e isso também é importante para eles perceberem que podem tomar decisões e que, não têm apenas que obedecer.
Fiz isso através da corrida inicial, da fase de alongamentos, e dos exercícios isométricos. Contudo, e depois de rever algumas coisas, penso que posso melhorar ainda, tendo em conta o aspecto seguinte;
2º- O grupo e a interacção entre os elementos da equipa. Achei por bem fomentar esta prática. Dividi-los em equipas, subdividir as equipas em duplas, agruparem trios, treinar juntando todos os escalões na mesma equipa. Achei que estes em particular resultaram muito bem, e se juntarmos a isto o uso da bola, tornou o ambiente mais divertido e o trabalho acabou por ser feito na mesma.
Admito que, eventualmente, possa desta forma estar a perder no trabalho específico de grupos musculares em particular (tentarei melhorar alguns exercícios para colmatar um pouco isso) nomeadamente nos músculos antagonistas do ciclo de pedalada e da postura do ciclista.
Com isto acabei eu próprio por me motivar mais, pois acabo por ter criatividade para criar coisas diferentes. E com pouco material conseguir inventar sempre exercícios novos.
Por fim, convém finalizar este post dizendo que também adotei uma postura mais intolerante aos atrasos, acrescentando mais disciplina, mas de uma forma democrática e inteligente. Graças a estas novas regras consigo terminar o treino á hora prevista, e ainda dá para falar um pouco no final do treino para tirar alguns detalhes ao pormenor.
Estou a sentir já alguma mudança de atitude por parte deles, e isso é bom pois é sinal que as alterações que fiz estão a dar frutos. Graças a isso tenho um grupo mais empenhado e acima de tudo mais motivado para seguir para a estrada. Confesso que terei dificuldades em escolher o atleta do mês de Novembro :P
Aqui vos deixo o respectivo vídeo:
 Até para a semana,
TT
Publicado em Crónicas de um treinador, Vídeos | Publicar um comentário